-cada vez que floreio está marcame lembro de um fandango lá no pinhão da serrana costa do rio pelotaseu era um peão de estânciae não sei porque motivo que às vezes não me convidavampra esses bailes, mas como esse era um fandango muito afamadoresolvi ir de carancho sem ser convidadoera num sábado quando sol já ia se escondendomontei no meu zaino e na marcha troteadacortei umas três léguas e meia mais ou menosquando cheguei assim numa canhadaescutei lá embaixo de uma ramadauma acordeona que tocava mais ou menos assim.-cheguei na frente do ranchopus meu cavalo na sogapaguei a entrada e entreie fui direto nas bandas dos tocadorese o fandango estava fervendo no balanço do vaneirãoassim deste jeito:-quando o gaiteiro me viu gritou de lá:-pegue a gaita zé mendes me da uma canjatoca um pouco que eu preciso dançar com uma prendaque faz horas que está me namorandopuxei minha oito baixos e sapequei uma vaneiramais ou menos assim:e já resolvi cantar uns versos, e soltei:eu vim aqui sem ninguém convidarmas também sei tocar, sei cantarpor gostar muito de baile de ranchoeu vim de carancho eu vim de caranchoeu vim aqui sem ninguém convidarmas também sei tocar, sei cantarpor gostar muito de baile de ranchoeu vim de carancho eu vim de carancho-o gaiteiro se sumiu na salapassou da meia noite me deu uma fome danadae já cantei uns versos pro cacheioeu vim aqui não foi só para sofrereu quero comer eu quero comereu vim aqui não foi só para sofrereu quero comer eu quero comer-ai o garçom me trouxer uma bandejacom pasteis mas começou a ressecar a goelae eu já disse mais uns versos para o garçom:eu vim aqui não foi só para comereu quero beber eu quero bebereu vim aqui não foi só para comereu quero beber eu quero beber-aí me trouxeram uma gasosatomei e nisto chegou uma garotadessas modernas com uma minissaiamuito bonita que me perguntou:-escuta aqui ó gaiteirovai tocar só isso?não toca nada do roberto carlos?-e eu que não sou muito assustado respondi:-toco senhorita pode aguardar que já sai e soltei:-de repente no fandango surge um carade cabelos curtindo uma onda de hippiechegou e me disse:-escuta aqui o bicho corta essa entrana minha e larga um som diferentee eu respondi pra ele:-qual que tu que o cara?-entra numa de beatles-hã bitles, já sai!e soltei de novo:-daí eu já estava cansadoe o gaiteiro não apareciaresolvi cantar uns versos para ele:eu vim aqui não foi só para tocareu quero dançar, eu quero dançareu vim aqui não foi só para tocareu quero dançar, eu quero dançar-e o gaiteiro escutou os versoslargou par e veio e pegou suaacordeona e largou quase a mesma:-e eu convidei a moça mais linda da salaque estava de saia encarnada e sai marcando vaneirãoe aproveitando embalo cantei um verso no ouvido da prenda:eu vim aqui mas não foi só para dançareu quero apertar, eu quero apertareu vim aqui mas não foi só para dançareu quero apertar, eu quero apertar-e a moça me respondeu no pé da letratu veio aqui mas não pode apertartu vai apanhar, tu vai apanhartu veio aqui mas não pode apertartu vai apanhar, tu vai apanhar-e quando olhei assim para um ladoestava o velho pai da moça comuma cara enferuscada que já cantouuns versos para mim:tu veio aqui mas tu é muito feionão me facilite que eu te passo o reiotu veio aqui mas tu é muito feionão me facilite que eu te passo o reio-e para não apanhar nesse bailetive que cantar uns versos para o velho:eu vim aqui mas não cheguei agorase for desse jeito então vou me emboraeu vim aqui mas não cheguei agorase for desse jeito então vou me emborae o fandango terminou na horamontei no meu zaino e saí campo aforae o fandango terminou na horamontei no meu zaino e saí campo afora