Música e letra

A Volta do Sorro Manso

Por Pedro Ortaça, do álbum Galo Missioneiro.

2000
Versão completa
Letra

A Volta do Sorro Manso

Arreganho a oito baixo que nem risada de china Faço roncar os bordões enquanto a prima se empina Voltando a historia do sorro que hoje no mais se termina. É que o sorro desta historia não pegou ensinamento Curado da minha surra lá se esqueceu dos tormentos Voltando a roubar o que é alheio para manter o sustento. Armei a trempe de novo, de novo peguei o bicho Lhe dei um risco nas fuças com pente de carrapicho E um chá de pata-de-vaca pra lhe tirar os caprichos. Lhe perguntei dos ensinos e o sorro olhando para mim Me repetiu meus conselhos um a um, tim-tim a tim-tim E me pedindo licença sentou-se e falou assim. Bicho rouba por instinto que é coisa que não se ataca Mas há muito sorro manso de paletó e gravata ? Que com pele de cordeiro vive de roubo e mamata. E há um velho ditado que corre nesse rincão Cadeia é feita pra pobre que rouba por precisão E barão que rouba muito, quem rouba pouco é ladrão. E como é que um pobre sorro que não tem dono, nem vez Que nunca foi numa escola só conta de uma a três Pode viver sem salário sem paga no fim do mês. O mundo é feito pra todos, mas isso não corre certo No repartir das boladas leva mais quem ta mais perto O grande engole o pequeno e a sobremesa é o esperto. Entre os bichos e entre os homens tem os ricos e tem os pobres Mas o pobre que é esperto logo uma ciência descobre Que infeliz é aquele que deixa que a espinha dobre. Não nasci pra dobradiça, nem sirvo pra tetéia Por isso que me rebusto conforme a força da idéia Me viro que nem bolacha numa gengiva de veia. Procuro tirar dos ricos conforme foi seu ensino Pra alimentar minha sorra, dar bóia pros meus sorrinhos Roubar pra matar a fome sempre foi o meu destino. Nascer ladrão foi a sina que deus deixou para o sorro Embora pareça um vicio não é mais do que um socorro De quem é cria de lobo que se cruzou com cachorro. E aqui termino essa fala que é minha filosofia Faça de mim o que queira mas não esqueça que um dia Deus entorta a mão daquele que ao pobre fraco judia Enquanto o sorro ladino me enchia de explicação Foi me doendo por dentro me embalando o coração E conclui finalmente que o bicho tinha razão. Tirei-lhe corda e maneia, dei-lhe um tapa no focinho E lhe disse vai-te embora dar bóia pros teus sorrinhos Não há coisa mais triste que a fome rondando o ninho. Deu no pé o sorro veio mas me deixou uma lição Nunca julgar quem é pobre sem lhe escutar a razão Lembrando que jesus cristo morreu entre dois ladrão.