Alegrete · Rio Grande do Sul · Brasil
Letra de música

Aqui (poema)

Lisandro Amaral · Canto Ancestral

Capa de Canto Ancestral
Lisandro Amaral

Aqui (poema)

Canto Ancestral · 2011
O progresso e o tempo novo mataram os rebanhos As comparsas de esquila a martelo O brete, o rodeio e as marcações porteira afora O rádio emudeceu as vitrolas E o caminhão matou o tropeiro E o homem E a mulher Ah, Estes ainda não Os homens e mulheres deste pago Estão como cernes de guajuvira Eretos e firmes Como sempre Nas suas almas Está guardada A melhor fibra da raça crioula Mantendo como patrimônio maior A honra, a dignidade, o apego ao chão O trabalho duro e honesto A gente do meu rincão Sabe arrancar deste solo O seu sustento suado Crescemos... Crescemos tranqueando Atrás do arado E conversando com os bois Por isso, o braço forte As mãos, a alma e o coração Calejados pelo trabalho pacífico Conduda que adquirimos Pelos ensinamentos dos nossos anteriores Que balizaram rumos pra nós Montaram a cavalo para defender E tornar brasileiro O chão em que pisamos Que guarda as suas cinzas Aqui, As nostalgias da campanha Encontram amparo nas cruzes sozinhas Quando debruçam às sombras De braços abertos Sobre a teimosia dos parronais Sobre essas imagens É que a saudades ganham estatura De cerros Aqui, Repartimos a dor em silêncio Porque a alma quando está ferida Substitui as palavras Pelo idioma do coração Aqui, As sombras dos cinamomos É muito mais que uma sombra É o lugar Onde comungam os mansos e chucros Remoendo tranquilos nos sóis dos verões A ceiva natural dos campos E onde as espécies se igualam Celebrando a vida ao redor das casas Apenas aqui O andante descobre O valor de um "oh de casa" Quando soado de corredores Bate palmas de esperança Na frente do parapeito E as portas, as portas se abrem Para ouvir os seus relatos Colhidos nas estradas Aqui, A cordeona tem vozes De recuerdos A guitarra Tem alma de pátria e querência Os galos acordam as madrugadas E o cheiro dos campos Vem dormir dentro de casa Aqui, Se conhece a volta certa Dos cambões das porteiras E se entende de laços Arames e tranças De potros e domas Conjuntas e jurros Arados e enchadas Mariposas e galiotas Machados e tiradeiras Aqui, As mangueiras encerram Os tombos dos pealos E os comandos de "forma cavalo" Os berros das vacas mansas Timbram a alma do pago Com refrãos enluarados De madrugada Apenas aqui Ainda se ouve Nas tardes quentes de chuva O tuco-tuco justificando seu nome E as caliandras ainda encontram Varais com charque Para temperar o assoviu Nas noites quentes Ainda se escuta a saparia Afianda um canto Na chaira dos juncais As esporas Ainda riscam o chão dos galpões E as botas Tem o couro marcado Pelo suor dos cavalos As chaminés dos fogões a lenha Ainda fumegam pelas madrugadas E ainda se pode ouvir As cantigas das sangas claras Os berros de touro E a cantoria dos grilos As babas de boi Tremulam nos caranguatás Asteando em mastros de espinhos Os rumos dos ventos Aqui, Ainda se podem ver bombachas remendadas E camisas feitas de saco Estendidas num quarador Próximo a tábua de bater roupas Nos empedrados das sangas As mulheres Ainda usam sombrinhas Lenços na cabeça Para a lida E ainda bordam panôs Aventais, guardanapos E ainda fazem pão com torresmo Aqui, A sabedoria secular Ensinou que se fazendo uma cruz Com carvão sobre os ovos, de galinha Para chocar Os trovões não conseguem gorar E a natureza se encarrega de descascar as ninhadas E espalhar infâncias de veludos Nos terreiros bem varridos Aqui, Ainda se usa o macete E a mordaça para sovar o couro E se toma café com bolo frito Nas tardes chuvosas De inverno A cicatriz dos rodados Que nascia nas cacimbas Hoje serve de caminho Para a sobra dos aguaceiros Engordar as enchentes As vezes o céu pinga Pelas goteiras dos nossos tetos Apaga lua e estrelas Mas acende em cada um A sabedoria E a esperança Aqui, A felicidade Não tem anéis nos dedos Nem diplomas nas paredes Mas se tem olhos da alma Capazes de interpretar As parábulas da natureza Porque sabemos Que o canto matinal dos bem-te-vis É um diálogo com Deus
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