Alegrete · Rio Grande do Sul · Brasil
Letra de música

História do Juca (Poesia)

Ivan Taborda · Alô Tchê

Capa de Alô Tchê
Ivan Taborda

História do Juca (Poesia)

Alô Tchê · 2017
Era estância mais linda Margeando o Rio Uruguai Que herdara do velho pai Ainda na sua infância Mas o pai com arrogância Fez o Juca prometer Que nunca ia vender Aquela bonita estância Ajoelhado rente a cama Com olhar pesaroso E um soluço teimoso Lhe fez chorar sem querer Papai enquanto eu viver Eu não farei estravagância E vou conservar a estância Até o dia em que eu morrer E devagar passou-se os anos Na luta bruta das domas Mas o ressovar da cordeona Já era um convite pra farra E nunca faltou amarra Desta querência patrícia E a china que tem malícia Sabe pealar de cucharra De certa feita voltou ao rancho Já na garupa do dia E junto consigo trazia Alguém do seu agrado Na anca do tostado Uma china larifona China com ares de dona Crioula lá do povoado E ali foram vivendo Seguindo a mesma trilha E quando surgiu a família Foi amanunciando de baixo Dequadas do mesmo tacho Que não se compra na venda Para ajudar na fazenda Uma prenda e dois machos E nas auroras matutinas Saía para a recorrida Ensinando na lida O piazedo ainda novo Mas a china com retovo Manhoza, caborteira Alarifa e retrincheira Queria voltar para o povo Dizia o Juca Nem por brinquedo eu não troco Este rincão pelo povo E lá se precisa retovo E o dinheiro se vai E a prece de meu pai Que eu fiz com arrogância Para conservar a estância Aqui nas margens do Uruguai Dizia a china: Que nada! Não adianta. Qualquer dia eu vou embora. Porque meus filhos aqui fora Só aprendem a ser domador Profissão sem valor O estudo é muito mais seguro. E tu não vê que no futuro Eles podem ser até doutor. Tá certo o que tu dizes, china. E aqui tu explica Os filhos vão, mas tu fica E como eu fico ancho Na volta da campereada Quando te encontro de cuia cevada Me esperando sentadita Ali na porta do rancho Mas tanto a china amola Que o Juca não resiste E concordou muy triste E da brasa acendeu um pito E depois quase num grito Mulher! tu tá de arte A garra tuas cria e parte Que aqui no más eu moro solito E alí no oitão do rancho Viu partir a tropa miúda Depois a china fachuda Caramba! Barbaridade! Como eu vou sentir saudades Deste piazote miúdo Tem que ir para o estudo E se vão morar na cidade Com as mãos sobre a cabeça Olhando triste a partida Viu as sombras compridas Cobrindo a cercania E já era fim do dia Malmente se enchergava o campo E o aceno de um lenço branco De alguém que partia E veio a noite escura Como a alma de um injusto O uivar triste do cusco Lhe deixou mais aborrecido E murmurava no ouvido Aqueles lábios molhados Aquele corpo delgado E aqueles cabelos compridos O vento, uma ave grande Que sobre as guinchas assoviava Parece que se aninhava Na copa do cinamomo Dormiu. mas, viu em sonho Cravado em sua retina O corpo esbelto da china Nos braços de um outro dono E se foi passando os anos O rancho semi-tapera E chegou a primavera As flores, os seus mistérios E o Juca estava muy sério E era dia de finados Ensilhou o pingo tostado E se foi até o cemitério Apeia em silêncio E dá uma olhada pro céu E de manso tirou o chapéu E entre as cruzes se vai E sente as lágrimas que cai Pesadas, gotejante E depois parou alí adiante Em frente ao t~umulo de sei pai Acendeu a vela santa E sentiu na garganta O frimito da amargura Papai eu vim em tua sepultura Lembrei-me do teu pedido Mas papai como eu tenho sofrido Para cumprir aquela jura Cumpro com sacrifício O teu pedido velho santo Não vendi o nosso campo Que me destes por herança E quando a saudade me avança Eu saio pelas colinas Curtir a saudade da china E chorar pelas crianças Não vim chorar miséria Diante a tua sepultura O que eu quero é que me ajude das alturas A encontrar outra prenda Que goste desta fazenda E respeite a minha jura.
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